Bilhetinho

Image

Eu queria que você soubesse que eu estou bem.

Dizem por aí que eu andei para trás. E é verdade, andei mesmo. Mas foi aquele passinho que impulsiona para frente, sabe?

E nesse novo jeito de caminhar, eu, que vivia no meio do meu furacão pessoal, agora tenho o coração em paz. A cabeça continua com aquele turbilhão de sempre, mas o coração… Esse encontrou uma tranquilidade que não via há muito tempo – ou talvez nem conhecesse.

Posso estar longe, mas hoje consigo compartilhar mais alegrias que insatisfações. É melhor assim. Adianta viver perto dividindo apenas as frustrações?  Eu prefiro a alegria, a saudade, a leveza.

Leveza. Eu me sinto mais leve. Não só pelos pesos que o corpo foi abandonando pelo caminho, mas principalmente pelas frustrações e medos que a alma abandonou.

Então, não se preocupe com a distância. Eu não acredito que bons relacionamentos são como rosas. São como cactus: sobrevivem aos períodos de seca e não deixam de brotar flores.

Eu realmente queria que você soubesse que eu estou bem. Estamos bem. Isso é tudo.

Anúncios

Dancing with herself

Image

Passava horas seguidas brincando sozinha. Sem achar solitário, sem ser autista, sem interferir no relacionamento com os coleguinhas da escola.

Sempre achou estranho quem tem necessidade de companhia constante; “Em que momento ele consegue ouvir a si mesmo se tem sempre alguém abafando a voz interior?” Você se diverte sozinha: cria situações cômicas, paranoias, perseguições, imagina diálogos, reescreve-os cinco vezes e dirige as cenas nas horas – dias até – em que fica só.  

E olha, você não precisa desgostar de ser assim, mas precisa admitir que não dá para dançar solo para todo o sempre. Porque eu sei que você é dura na queda da entrega, mas dessa vez você corre o risco de se apegar demais; curtindo muito a companhia que te entende, diverte e nunca vai embora: a própria.

Solilóquios

Image1.

– O problema é você.
–  …
– Fria, auto protegida ,distante, sempre na defensiva…
– Observe. Sempre que a embalagem é reforçada, o conteúdo é frágil.

 2.

– Cansei. Desgastou.
– Já?
– Um pneu de carro de Fórmula 1 não aguenta chegar ao final de uma corrida porque é usado até o limite. Mas o pneu de um carro de passeio roda por muito tempo; até careca, velhinho, ele dá pro gasto, né?
– É. Mas o que isso tem a ver?
– Desgastou. E não foi o tempo, foi  a intensidade.

3.

– Quase 25 anos, 15 anos de vida escolar, 4 anos de faculdade de comunicação e você não aprendeu a expressar os sentimentos.Fala o que te incomoda, é sarcástica, irônica e tem sempre uma resposta pronta nas suas crises de sinceridade brutalmente excessiva. Mas os sentimentos, aqueles doces, bonitos…
– Esses ficam aqui guardados.
– Chego a duvidar que você os tenha.
– Tenho! E como tenho! É errado proteger o que possuo de mais bonito e precioso?
– Errado não é, mas é estranho enclausurar coisas que se tornam ainda mais bonitas quando são compartilhadas.

Feliz Ano Novo!

ImageSó quando entrei no blog para atualizar é que percebi que há quase um ano não posto nada. 
Clichês: o tempo voa e parece que foi ontem.
Como é ano novo no ‘Escrevo’, me permito a promessa de postar com mais frequência ; e já me permito a indulgência de talvez não cumprir.  
Quebrar promessa de réveillon, quem nunca?
É que tudo mudou e nada mudou. Mas uma coisa é certa: eu ainda não sei desenhar.

Só um pouquinho de querer já tá bom.

Quis muito. Muito. MUITO.

Mas quis o incerto.

Quis não querer mais.

Aí, quis desligar o botão do querer e, sem querer, desliguei a chave geral.

Não quis mais nada. Na-da. NADA.

Oca. Vazia.

ONDE RELIGA ESSE BOTÃO PELAMORDEDEUS?

Cheguei à conclusão que é melhor querer alguma coisa, do que nada.  Mesmo que seja bobo. Que seja pouco. Que seja vergonhoso, até. E sabe por quê? Balão vazio não voa, bebê.

Eu, Flavia C.

Você é uma droga.

Causa euforia, alegria, alucinações, perturbações e dependência. Você me faz pensar que sua falta me faz mal; me faz querer sempre mais de você. Mas não é a falta, é a presença que não me faz nada bem.

Reconhecer o vício não é o primeiro passo?  Eu disse sim, sim, sim àquela rehab que a Amy disse ‘no’.

Todos os dias, levanto e faço promessas a mim mesma: só por hoje eu não vou te ligar, só por hoje eu não quero notícias suas, só por hoje não vou te stalkear, só por hoje foda-se você.

E tem dado certo, sabe? Posso dar testemunho:

“Oi, meu nome é Flavia, tenho 23 anos, sou viciada em você e estou limpa há 53 dias”.

Um só por hoje diariamente renovado.

Só por todos os dias.

[ ø ]

Sem essa de “eu me basto”!

No fundo, todo mundo quer ser parte.

Ser parte de um conjunto, ser semelhante a outros elementos, ser interseção. Porque solidão é insuportável! Solidão de alma, sabe? Daquela que não vai embora nem com ‘mils’ pessoas ao redor. Concordo com o poetinha: “É impossível ser feliz sozinho”.

Quem diz que vive bem sendo um elemento único é um grande mentiroso…

Porque a verdade é que essa coisa de conjunto unitário só funciona na matemática. Na vida real, todo conjunto unitário é vazio.

Sobre lindas roupas e pessoas interessantes

Quando vir uma roupa muito bonita, numa vitrine qualquer, experimente-a.

Você pode adorar o caimento, acreditar que é a roupa perfeita e levá-la; ou simplesmente pode perceber que ela é bonita na vitrine, mas não te serve. Vai te decepcionar, mas acaba com a ilusão do ‘e se fosse…’.

Com as pessoas também funciona assim.

Quando encontrar uma interessante, experimente-a. Aquela pode ser a ideal para você… ou não. Só experimentando para saber.

E quando a gente prova mas não quer aceitar que a pessoa/roupa não serve? Muito comum, afinal, a gente sempre acha que pode dar um jeitinho…

Evite comprar roupas pensando em emagrecer, engordar,cortar metade do comprimento fora ou colocar silicone para que a roupa caia bem; evite investir em relacionamentos esperando uma transformação enorme do outro – ou sua.

Fazer uma bainha, apertar um dedinho, esquecer um pouco uma mania besta, um mau hábito, tudo bem! Mas grandes ajustes são trabalhosos e dificilmente sairão bem acabados.

Outra coisa: preferencialmente, mantenha distância das roupas que já possuem dono. Atenha-se às vitrines disponíveis.

Brechós também são bem-vindos; peças cheias de experiência e histórias para contar… e o melhor: super interessados em achar novos donos.

Ah! Não queira só aquela roupa que você gostou muito. Esteja aberto às outras opções. Existem muitas que a gente nem imagina que são lindas, até que vestimos e nos apaixonamos.

Seguindo as dicas, não deixe de procurar, gostar e provar. E se aquela não servir, existe um mundo de vitrines e pessoas por aí, só esperando que você apareça para experimentá-las.

 

Supervocê x Você

Nenhuma aranha te mordeu, você não nasceu num planeta distante, nem foi atingido por raios gama.

Você mesmo criou uma identidade secreta e resolveu dizer ao mundo que essa fantasia é a mais pura verdade.

A diferença é que os heróis lutam contra o crime, o mal, os vilões. E na sua história, o vilão é você mesmo. Quem vence a batalha?

Eu entendo que bancar o super-herói é muito mais interessante e atrativo do que a vida real:

Ao virar Homem-Aranha, Peter Parker torna-se poderoso e deixa para trás toda a timidez; o Superman ganha a atenção do mundo, enquanto Clark Kent é apenas um jornalista em Metropolis e Bruce Wayne é só um playboyzinho sem toda aquela aura obscura do Batman.

É, você realmente acredita que é melhor se esconder e viver o personagem.

Mas sabe de uma?

Eu te prefiro você.

Sem máscaras, sem fantasias, sem capas.

Com defeitos, inseguranças e medos.

Eu te prefiro você. Só você.

 

P.s: Ao ler esse texto, não vista a carapuça. Retire-a.

Uma história real inventada

Tenho o costume de olhar para pessoas desconhecidas e imaginar suas histórias de vida; de onde são, o que passaram, o que desejam, se tem filhos, a profissão etc.

Esses dias, na rodoviária, encontrei uma mulher que vou chamar de Rita. Ela desembarcava em Salvador, aparentava uns 21 anos, trazia uma mala na mão e um bebê de cerca de 7 meses no mamãe-canguru. Além disso, tinha uma grande mancha roxa ao redor do olho esquerdo e carregava um dos olhares mais tristes que já vi. Ao me deparar com essa mulher, rapidamente comecei a imaginar. Que histórias ela já viveu? Por que um olhar tão triste, de quem carrega décadas de sofrimento, apesar da pouca idade? E lá vou eu inventar…

Rita nasceu e sempre morou em Quijingue ,interior da Bahia. Saiu da cidade poucas vezes em sua vida. Terminou o segundo grau com dificuldades. Na verdade, ela não gostava de estudar. Queria ser cabeleireira e não acreditava que a escola poderia ajudar na profissão que havia escolhido.

Aos 18 anos, Rita se apaixonou. Cair de amores por Zeca foi sua felicidade e seu tormento. Ele era o ‘garoto problema’ da cidade: vivia se metendo em confusão e era violento; não com Rita,  com ela ele era só carinhos. Esse tratamento a fazia enfrentar a família e os amigos, que desaprovavam o namoro. Para Rita, todos conheciam Zeca; mas só ela conhecia o Zeca de Rita.

Os problemas começaram quando Zeca, além de ser apaixonado por ela, encantou-se por outra: a bebida. Um dia, em uma das aparições bêbadas de Zeca, o casal brigou e, pela primeira vez, Rita apanhou. E não fez nada. Era uma fase. Ele estava com problemas.Precisava de apoio. Rita repetia essas frases como se fosse um mantra.

A fase não passo; as bebedeiras tornaram-se cada vez mais freqüentes e a violência também. Rita ameaçava terminar, Zeca prometia mudar. Prometia que voltaria a ser o que era – só prometia. Mesmo assim ela não conseguia abandoná-lo.

Quando descobriram a gravidez, ela implorou para que ele ao menos tentasse largar a bebida. Zeca conseguiu. Rita teve uma gravidez super tranquila, ao lado do Zeca por quem ela tinha se apaixonado: o Zeca de Rita.

Depois do nascimento de Gustavinho as coisas voltaram a desandar. Zeca voltou a beber, passava menos tempo em casa e não se importava com o filho. Mais uma vez, tornou-se violento. Ameaçou bater no filho várias vezes e o pior não aconteceu porque Rita tomou a frente e apanhou no lugar do bebê. Foi a gota d’água. Ela amava Zeca; apesar de tudo, ainda amava. Mas amava seu filho muito mais. Amava aquele ‘amor de mãe’ que ela sempre ouviu falar e nunca acreditou que existisse.

Ligou para uma tia que mora em Salvador e pediu abrigo. Tinha que ficar longe de Quijingue. Manter distância de Zeca. Precisava de analgésicos para as feridas do corpo e tempo, muito tempo, para sarar a alma.

Rita desembarcou em Salvador com uma mala na mão e Gustavinho no colo. Não sabia o que lhe esperava na capital; tinha medo, mas confiava que tudo seria melhor. Naquele dia, o coração de Rita – guiado por seus olhos tristes – conheceu e reconheceu um sentimento novo: esperança.