Uma história real inventada

Tenho o costume de olhar para pessoas desconhecidas e imaginar suas histórias de vida; de onde são, o que passaram, o que desejam, se tem filhos, a profissão etc.

Esses dias, na rodoviária, encontrei uma mulher que vou chamar de Rita. Ela desembarcava em Salvador, aparentava uns 21 anos, trazia uma mala na mão e um bebê de cerca de 7 meses no mamãe-canguru. Além disso, tinha uma grande mancha roxa ao redor do olho esquerdo e carregava um dos olhares mais tristes que já vi. Ao me deparar com essa mulher, rapidamente comecei a imaginar. Que histórias ela já viveu? Por que um olhar tão triste, de quem carrega décadas de sofrimento, apesar da pouca idade? E lá vou eu inventar…

Rita nasceu e sempre morou em Quijingue ,interior da Bahia. Saiu da cidade poucas vezes em sua vida. Terminou o segundo grau com dificuldades. Na verdade, ela não gostava de estudar. Queria ser cabeleireira e não acreditava que a escola poderia ajudar na profissão que havia escolhido.

Aos 18 anos, Rita se apaixonou. Cair de amores por Zeca foi sua felicidade e seu tormento. Ele era o ‘garoto problema’ da cidade: vivia se metendo em confusão e era violento; não com Rita,  com ela ele era só carinhos. Esse tratamento a fazia enfrentar a família e os amigos, que desaprovavam o namoro. Para Rita, todos conheciam Zeca; mas só ela conhecia o Zeca de Rita.

Os problemas começaram quando Zeca, além de ser apaixonado por ela, encantou-se por outra: a bebida. Um dia, em uma das aparições bêbadas de Zeca, o casal brigou e, pela primeira vez, Rita apanhou. E não fez nada. Era uma fase. Ele estava com problemas.Precisava de apoio. Rita repetia essas frases como se fosse um mantra.

A fase não passo; as bebedeiras tornaram-se cada vez mais freqüentes e a violência também. Rita ameaçava terminar, Zeca prometia mudar. Prometia que voltaria a ser o que era – só prometia. Mesmo assim ela não conseguia abandoná-lo.

Quando descobriram a gravidez, ela implorou para que ele ao menos tentasse largar a bebida. Zeca conseguiu. Rita teve uma gravidez super tranquila, ao lado do Zeca por quem ela tinha se apaixonado: o Zeca de Rita.

Depois do nascimento de Gustavinho as coisas voltaram a desandar. Zeca voltou a beber, passava menos tempo em casa e não se importava com o filho. Mais uma vez, tornou-se violento. Ameaçou bater no filho várias vezes e o pior não aconteceu porque Rita tomou a frente e apanhou no lugar do bebê. Foi a gota d’água. Ela amava Zeca; apesar de tudo, ainda amava. Mas amava seu filho muito mais. Amava aquele ‘amor de mãe’ que ela sempre ouviu falar e nunca acreditou que existisse.

Ligou para uma tia que mora em Salvador e pediu abrigo. Tinha que ficar longe de Quijingue. Manter distância de Zeca. Precisava de analgésicos para as feridas do corpo e tempo, muito tempo, para sarar a alma.

Rita desembarcou em Salvador com uma mala na mão e Gustavinho no colo. Não sabia o que lhe esperava na capital; tinha medo, mas confiava que tudo seria melhor. Naquele dia, o coração de Rita – guiado por seus olhos tristes – conheceu e reconheceu um sentimento novo: esperança.

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